quarta-feira, Julho 19, 2006

Novo (definitivo) endereço

O "Sem Papas na Lingua" encontra-se a funcionar permanentemente no seguinte endereço: http://www.heldersanches.com .

Apareçam e participem!

quinta-feira, Outubro 23, 2003

Questões Lusófonas

Fui recentemente contactado por uma simpática jornalista brasileira - Patrisia Ciancio - que me colocou algumas questões relativas ao LusoFórum - Fórum de Reflexão do Mundo Lusófono. Porque as questões me pareceram bastante interessantes, não resisto a deixar aqui uma transcrição das ditas perguntas e das minhas respostas.

1. O que te motivou a criar o Fórum lusófono?
Basicamente, um sentimento de que se não for a sociedade civil a tentar manter os laços existentes entre os povos lusófonos e a tentar estabelecer novos motivos de proximidade, esse conceito de lusofonia deixará de fazer sentido em apenas algumas gerações. Gosto de falar português com interlocutores de pronuncias diversas e penso que todos temos muito mais em comum do que a maioria imagina. A diversidade cultural existente em todos os povos lusófonos assenta numa preciosa riqueza histórica comum e isso não deve, nem pode, ser ignorado.

Portugal, por razões históricas, tem a obrigação de ser o catalizador de uma união entre todos esses povos mas, por razões da história recente, procede de uma forma envergonhada e complexada. O processo abrupto de descolonização deixou feridas na consciência de todos os povos envolvidos, feridas essas que tardam em sarar.

O Fórum Lusófono que eu criei tem como objectivo a troca de ideias, sensibilidades, preocupações e soluções acerca da relação entre os povos lusófonos, direccionado para a população em geral e não para uma elite cultural que muito opina e pouco produz.

2. Sobre o Acordo Ortográfico da Língua Portuguesa, você acredita que haja vontade política para resolver essa questão que perdura por quase 60 anos?
Sinceramente, o Acordo Ortográfico parece-me ser uma solução artificial. Qualquer língua viva possui uma dinâmica própria que não pode ser emparedada por um acordo que, necessariamente, a limitaria a padrões anti-evolucionistas. Se todos os países lusófonos pouco interagirem a nível cultural, social, politico ou, melhor ainda, se pouco viverem em comum, é natural que cada país desenvolva o seu próprio português, devido às influências internas e externas a que cada um estará sujeito.

Quanto à vontade politica, parece-me não existir, realmente. Se existisse essa vontade politica, ela seria visível também noutras circunstancias da relação cultural entre os países lusófonos. A RTP Internacional e a RTP África parecem-me ser as únicas ferramentas com um forte impacto nas populações dos países lusófonos. Todas as outras acções apenas estão direccionadas para uma elite cultural minoritária.

3. Como você observa a relação entre os países da CPLP?
Numa palavra: complexada. Os países parecem ter uma relação estimulada pela obrigação histórica e não pela motivação politica ou cultural.

4. Você acha que o Acordo é visto como um instrumento de política cultural?
Qualquer politica cultural só é eficiente se chegar às bases, à população em geral. O Acordo Ortográfico é um produto de laboratório que pouco ou nada tem a ver com as populações das favelas do Rio, dos bairros de lata dos arredores de Lisboa ou do planalto de Angola. Pretenderá, eventualmente, ser um instrumento de uma politica cultural desorientada.

5. O que Portugal faz para divulgar a Língua Portuguesa hoje? E o que deixa de fazer?
Muito pouco. Para além das já referidas RTP Internacional e RTP África, pouco mais será digno de registo. O prémio Pessoa só tem impacto numa faixa limitada da população e as campanhas de envio de livros escolares para Timor ou S. Tomé e Príncipe são acções de circunstancia e não parte de um planeamento de longo curso. Mas a língua portuguesa é um património de todos os países lusófonos, não apenas de Portugal. Penso que com a coordenação de esforços de todos os países da CPLP a nível internacional, então sim, a língua portuguesa poderia ter outro nível de visibilidade no mundo moderno.

6. Você sabe se o Acordo em Portugal tem relevância, se as pessoas conhecem esse projeto, se já ouviram falar nisso?
O Acordo foi muito discutido há uns anos atrás de uma forma bastante intensa. Na altura, foi dada bastante cobertura pelos meios de comunicação. Hoje em dia, pouco se fala no assunto e, embora haja uma maior preocupação em cumprir determinadas regras de linguagem, essa preocupação tem mais a ver com a filtragem de alguns termos que entraram no dia-a-dia português após o 25 de Abril de 1974 com o regresso das populações das ex-colónias e com a popularidade das novelas brasileiras.

7. Você acredita que a unificação do Acordo pode tornar mais forte a CPLP e fazer dela um verdadeiro bloco político lusófono? Ou seja, o Acordo poderia alinhavar uma política mais efetiva entre tais países-membros?
Apenas simbolicamente. Não me parece que o Acordo per si seja essencial. Afinal, existem verdadeiros blocos internacionais de influência cujos membros não partilham o mesmo idioma. Para o bem e para o mal, a economia é hoje em dia o factor decisivo das relações internacionais. Um maior estimulo nas relações comerciais entre os membros da CPLP poderia, isso sim, servir de verdadeiro catalizador para uma melhor e mais influente lusofonia. Infelizmente, Portugal aderiu à União Europeia de uma forma que lhe parece bloquear os horizontes comerciais com o resto do mundo. Todos os países da CPLP teriam imenso a ganhar com uma maior abertura comercial entre eles. Portugal e Brasil poderiam, por exemplo, “ser” as “Franças” e “Alemanhas” dessa união, investindo nos PALOPs e em Timor. Talvez esta seja uma visão muito economicista da questão mas, a longo prazo, parece-me que seria mais eficiente.

8. Na dimensão do Acordo, fala-se muito da relação Brasil e Portugal. Você acha que interessa aos demais países da CPLP - africanos, por exemplo - essa unificação?
Do ponto de vista português, parece-me que a questão do acordo foi demasiado bipolarizada em Portugal e Brasil. Aos PALOPs interessará, com certeza, essa unificação, principalmente se Portugal e Brasil se entenderem.

9. A muito longo prazo, é possível prever uma espécie de morte anunciada da Língua Portuguesa se nada for feito para sua perpetuação e, sobretudo, por conta de pertencer em sua maioria a países economicamente desfavorecidos?
Penso que não. Poderá achar ridícula esta minha afirmação mas parece-me que a língua inglesa corre muito mais esse risco face à descaracterização que começa a sofrer devido a ser o idioma da globalização. A língua portuguesa não tem assim tão grandes diferenças que não permitam a um habitante do Alentejo português entender um nordestino do Brasil e vice-versa. De principio, poderá soar estranho e não se apanhar todas as expressões mas, passado o período de adaptação à pronúncia, entende-se perfeitamente.

10. Você acha que o termo lusofonia hoje se situa mais em que plano, meramente cultural ou já se observa o termo com alguma sensibilidade política?
Acho que se situa no plano das intenções. Não existe na prática nenhuma politica para a lusofonia pela parte dos diversos governos. Quanto à cultura, parecem-me existir tantas culturas lusófonas quantos os países membros da CPLP e isso seria óptimo se funcionasse em favor de uma unidade pluralista, mas não é o caso.

Existem franjas dos aspectos culturais que se sobrepõem, principalmente entre Portugal e Brasil. Em Portugal ouve-se muita música brasileira. No Brasil, alguns escritores portugueses são bastante apreciados.

Deveriam ser estimulados contactos entre as bases da população através de diversos mecanismos de interesse popular. Posso dar alguns exemplos:

- Concursos de poesia escolar
- Consórcios para produção de audiovisuais
- Festivais de música em português
- Torneios desportivos ao mais elevado nível
- Colocar nos programas escolares para adolescentes uma disciplina de Estudos Lusófonos
- As cadeias estatais de televisão emitirem programas de outros países lusófonos
- A livre circulação de pessoas
- Um maior estimulo às relações comerciais entre os CPLP

Portugal deveria ser o principal patrocinador destes eventos numa fase inicial. A história recente de Portugal “virou” Portugal para a Europa quando historicamente tivemos sempre mais virados para o Atlântico. Essa é uma mudança que eu receio trazer apenas algum proveito no curto prazo, não no longo prazo. Por outro lado, parece-me que o Brasil também estará mais “virado” para Norte do que para o Atlântico. A sensibilidade lusófona do Brasil é indispensável para um verdadeiro conceito internacional da lusofonia. Parece-me que caso Portugal e Brasil alinhassem as suas politicas seria altamente benéfico não só para ambos mas para todos os demais países lusófonos.

segunda-feira, Outubro 20, 2003

Estou sim? É p'ra todos...

O Eng. Ferro Rodrigues enfrenta sérios problemas de liderança. A cada passo que dá, parece enfiar-se mais no lodo.

Então, não é que agora os mesmos jornalistas que cumpriram a sua obrigação ao desmascarar o “vai-e-vem” de cunhas entre o ex-Ministro dos Negócios Estrangeiros e o ex-Ministro da Ciência e Ensino Superior já são uns malandros que violam o segredo de justiça ao transcreverem extractos das escutas telefónicas entre diversos dirigentes do PS? Então, em que ficamos? O senhor ainda não entendeu que o jornalismo em Portugal já assume empiricamente o desempenho do papel de consciência nacional? E ainda bem, caso contrário nem caso Casa Pia existiria aos olhos de todos nós.

Afinal, qual é o seu choque pelos extractos das escutas terem sido publicados se o senhor mesmo afirma “Estou-me cagando para o segredo de justiça”. Deixe-me dizer-lhe que considero muito mais grave essa afirmação vinda do líder do maior partido da oposição do que um milhão ou dois de euros numa conta de um ministro na Suiça.

O senhor tem aquele ar patusco de menino queque dado a rebeldias e, desde que foi eleito para o cargo de Secretário Geral do PS, tem vindo a utilizar um tipo de linguagem que já não se ouvia nas intervenções politicas em Portugal desde há quase trinta anos. Enfim, o senhor lá saberá a que faixa de eleitorado pretende agradar...

Uma coisa é certa: é por este tipo de razões que os portugueses nutrem cada vez mais pelos políticos um sentimento semelhante ao que o senhor tem pelo segredo de justiça.

Palpita-me

Passaram-se quase duas semanas desde que deixei aqui a minha última opinião.

Para quem não sabe, este interregno tem muito a ver com a abertura do restaurante no Bairro Alto, "Palpita-me". Fica na Rua Diário de Noticias, 40-A, e é a minha última aventura e paixão. Não é simples pôr uma casa daquelas a funcionar, daí ter deixado este blog para segundo plano.

Apareçam por lá. Temos uma ementa muito interessante, o espaço é simpático, as pessoas também e podem ainda assistir a uma animação muito original (strip-tease e sexo ao vivo?) Já ouvi isto em qualquer lado!

Temos ementas próprias para grupos com tudo incluido até ao café. E ainda temos um piano à disposição de quem quiser tocar. Apareçam, vale a pena...

terça-feira, Outubro 07, 2003

Díli adopta reciclagem socialmente imposta

Vi, recentemente, um vídeo gravado há poucas semanas em Timor-Leste, mais precisamente numa lixeira dos arredores de Díli. Não queria acreditar nas imagens que via! Crianças, homens, mulheres e idosos atropelavam-se para recolherem do lixo que estava a ser despejado de um camião das Nações Unidas (UN) os melhores pedaços de restos de comida. As imagens são impossíveis de descrever.

Disse-me quem gravou e me mostrou o vídeo que era uma circunstancia rotineira e que a quantidade de pessoas envolvidas naquela reciclagem socialmente imposta aumentava a cada dia que passava!

Dos aspectos que mais me chocaram foi a frieza com que os elementos da UN encaravam a situação, continuando a despejar o lixo, com uma indiferença doentia, como quem já está conformado com aquela realidade. Alguns desses elementos eram portugueses...

O cenário foi-me descrito como se de uma luta animalesca e selvagem pela sobrevivência se tratasse. As aves chegam cedo, pela madrugada, aproveitando a primeira luz fraca, convidativa. Logo depois, chegam os cães que as afugentam com ladrares e correrias, em matilha . Finalmente, as crianças, homens, mulheres e idosos, conquistam o território, desejosos de um precioso prémio comestível.

É arrepiante. É revoltante. Pela minha parte, não chega o que tem sido feito por Portugal. É preciso perguntar, quiçá demagogicamente, se o dinheiro que se vai gastar no envio de homens para o Iraque, nos estádios de futebol, em Casas da Música e em passes-sociais para os deputados não seria mais bem empregue em ajudar a criar estruturas económicas em Timor-Leste.

Recordo, vagamente, as palavras do Sr. Presidente da República ao abordar os atrasos na construção de alguns estádios de futebol: “Temos um compromisso com a UEFA e vamos honrá-lo”. E o compromisso com o povo de Timor-Leste, Sr. Presidente? Em que lugar se encontra ele na sua lista de compromissos de honra? Espero para ver. Deixem-me ir buscar um banquinho para me sentar...

quarta-feira, Outubro 01, 2003

Wanna smell our shit? Come to Algarve!!!

Duas localidades algarvias, a poucas centenas de metros do novo estádio de Faro/Loulé não dispõem, nem hoje, nem nunca no passado, dos mais rudimentares sistemas de saneamento básico. Água canalizada e esgotos naquela zona, só para o estádio, pois então.

Sinto-me, confesso, acima de tudo, assustado com estas noticias. Lá se vão todos os argumentos dos que defenderam a construção de todos estes estádios. Então, nos tão badalados estudos dos sistemas de acessibilidades não se deveriam ter incluído também a resolução de problemas semelhantes a este? Ao menos, poder-se-ia dizer que, do mal o menos, as populações que habitam nas áreas circundantes dos estádios veriam a sua qualidade de vida melhorada.

Deixo uma sugestão às populações de São João da Venda e Esteval: organizem-se e organizem o vosso próprio roteiro turístico para os milhares de estrangeiros que, certamente, irão passar à vossa porta, cheios de cachecóis, bandeiras, camisolas e cornetas. Levem-nos a beber água ao poço e a defecar para a fossa. Certamente, será uma experiência única para eles.
Infiltrem-se nas claques estrangeiras e coloquem aqueles banners nas bancadas a dizer “Come to Algarve. Bring water bottles”. Ou, melhor ainda: “Wanna smell our shit? Come to Algarve”.

terça-feira, Setembro 30, 2003

E Cabinda, Sr. Primeiro-Ministro?

A ida de paramilitares portugueses para o Iraque deixou-me muito mais descansado. Este é um claro sinal de que Portugal está decididamente empenhado em contribuir para o restabelecimento da ordem e legalidade internacionais.
Assim, podemos contar com Portugal para interceder junto das Nações Unidas (UN) e de Angola, assim como dos seus parceiros na União Europeia (EU) e dos Estados Unidos (EUA) para o restabelecimento da legalidade no território de Cabinda.
Portugal irá corrigir o erro histórico que cometeu no processo de descolonização ao atribuir o território de Cabinda a Angola. É que Cabinda nunca pertenceu a Angola. Cabinda nunca foi, sequer, uma colónia portuguesa; foi, isso sim, um protectorado de Portugal, reconhecido internacionalmente através do Tratado de Simulambuco. Este Tratado, assinado entre um representante da Coroa portuguesa e os representantes do Povo de Cabinda em 1885 obriga Portugal a defender a integridade e a soberania de Cabinda. Ora, após 1974, e durante os processos de descolonização, Cabinda foi entregue (alguns preferem o termo “vendida”) a Angola e ao MPLA.
Para quem não sabe, Cabinda tem condições para ser um dos territórios economicamente mais ricos de toda a Africa! A sua riqueza natural excede a do Koweit, pois não possui apenas petróleo!

Não será já a hora de Portugal perder a vergonha e repor a legalidade histórica? Será possível que nos media portugueses só se fale de Cabinda quando algum português é raptado? Será necessário acontecer um “cemitério de Sta. Cruz” em Cabinda para que se mude a postura?

Leitura recomendada: Cabinda - Um Povo à Espera

segunda-feira, Setembro 29, 2003

Eu gostava tanto de futebol

Quando era miúdo, raramente passava um fim-de-semana sem ir ver um jogo de futebol. Assíduo do já destruído Estádio da Luz, não havia jogo de Benfica que eu não fosse ver. Cartão de sócio, cachecol, gorro ou boné, consoante o clima, e lá ia eu. Se durante os primeiros anos ia com o meu pai e outros familiares, logo comecei a ir com os amigos. Finalmente, por volta dos meus 16 ou 17 anos, outras prioridades começaram a surgir. De repente, era muito mais interessante passar a tarde com uma namorada do que ir ver uma quantidade de gajos peludos a suar e a correr atrás da bola. Passei a ver os resumos ao domingo à noite e, só excepcionalmente, deslocar-me-ia a um estádio de futebol. A minha última overdose de futebol foi o campeonato do mundo de sub-20 em 1991.
De então para cá, contam-se pelos dedos de uma mão as vezes que entrei num estádio de futebol. Nem me despedi do velhinho Estádio da Luz!

Ontem, voltei a ver o Benfica na televisão. Ou melhor, a sombra do Benfica, uma vez que a única semelhança com o Benfica de outros tempos é apenas o nome. Até dá dó, coitados. Já perdi a conta há quantos anos o Benfica foi campeão pela última vez. Mas, para mim ainda pior que isso, já perdi a conta há quantos anos o Benfica não faz dois jogos seguidos a jogar como nos velhos tempos.
Como foi possível que o Sr. Manuel Damásio permitisse ao Dr. Artur Jorge ter aniquilado por completo uma equipa que tinha acabado de ser campeã nacional? Como é possível que esse senhor ainda tenha coragem de vir para a praça pública tecer comentários sobre o actual estado do clube e criticar as sucessivas presidências? Como é possível que ao Dr. Artur Jorge ainda lhe seja permitido treinar clubes em Portugal?

É por isso que eu acho que a única atitude digna de registo no panorama futebolístico em Portugal nos últimos anos pertenceu ao Sá Pinto. Só tenho pena que na altura o Sr. Manuel Damásio não estivesse por perto.