Fui recentemente contactado por uma simpática jornalista brasileira - Patrisia Ciancio - que me colocou algumas questões relativas ao LusoFórum - Fórum de Reflexão do Mundo Lusófono. Porque as questões me pareceram bastante interessantes, não resisto a deixar aqui uma transcrição das ditas perguntas e das minhas respostas.
1. O que te motivou a criar o Fórum lusófono?
Basicamente, um sentimento de que se não for a sociedade civil a tentar manter os laços existentes entre os povos lusófonos e a tentar estabelecer novos motivos de proximidade, esse conceito de lusofonia deixará de fazer sentido em apenas algumas gerações. Gosto de falar português com interlocutores de pronuncias diversas e penso que todos temos muito mais em comum do que a maioria imagina. A diversidade cultural existente em todos os povos lusófonos assenta numa preciosa riqueza histórica comum e isso não deve, nem pode, ser ignorado.
Portugal, por razões históricas, tem a obrigação de ser o catalizador de uma união entre todos esses povos mas, por razões da história recente, procede de uma forma envergonhada e complexada. O processo abrupto de descolonização deixou feridas na consciência de todos os povos envolvidos, feridas essas que tardam em sarar.
O Fórum Lusófono que eu criei tem como objectivo a troca de ideias, sensibilidades, preocupações e soluções acerca da relação entre os povos lusófonos, direccionado para a população em geral e não para uma elite cultural que muito opina e pouco produz.
2. Sobre o Acordo Ortográfico da Língua Portuguesa, você acredita que haja vontade política para resolver essa questão que perdura por quase 60 anos?
Sinceramente, o Acordo Ortográfico parece-me ser uma solução artificial. Qualquer língua viva possui uma dinâmica própria que não pode ser emparedada por um acordo que, necessariamente, a limitaria a padrões anti-evolucionistas. Se todos os países lusófonos pouco interagirem a nível cultural, social, politico ou, melhor ainda, se pouco viverem em comum, é natural que cada país desenvolva o seu próprio português, devido às influências internas e externas a que cada um estará sujeito.
Quanto à vontade politica, parece-me não existir, realmente. Se existisse essa vontade politica, ela seria visível também noutras circunstancias da relação cultural entre os países lusófonos. A RTP Internacional e a RTP África parecem-me ser as únicas ferramentas com um forte impacto nas populações dos países lusófonos. Todas as outras acções apenas estão direccionadas para uma elite cultural minoritária.
3. Como você observa a relação entre os países da CPLP?
Numa palavra: complexada. Os países parecem ter uma relação estimulada pela obrigação histórica e não pela motivação politica ou cultural.
4. Você acha que o Acordo é visto como um instrumento de política cultural?
Qualquer politica cultural só é eficiente se chegar às bases, à população em geral. O Acordo Ortográfico é um produto de laboratório que pouco ou nada tem a ver com as populações das favelas do Rio, dos bairros de lata dos arredores de Lisboa ou do planalto de Angola. Pretenderá, eventualmente, ser um instrumento de uma politica cultural desorientada.
5. O que Portugal faz para divulgar a Língua Portuguesa hoje? E o que deixa de fazer?
Muito pouco. Para além das já referidas RTP Internacional e RTP África, pouco mais será digno de registo. O prémio Pessoa só tem impacto numa faixa limitada da população e as campanhas de envio de livros escolares para Timor ou S. Tomé e Príncipe são acções de circunstancia e não parte de um planeamento de longo curso. Mas a língua portuguesa é um património de todos os países lusófonos, não apenas de Portugal. Penso que com a coordenação de esforços de todos os países da CPLP a nível internacional, então sim, a língua portuguesa poderia ter outro nível de visibilidade no mundo moderno.
6. Você sabe se o Acordo em Portugal tem relevância, se as pessoas conhecem esse projeto, se já ouviram falar nisso?
O Acordo foi muito discutido há uns anos atrás de uma forma bastante intensa. Na altura, foi dada bastante cobertura pelos meios de comunicação. Hoje em dia, pouco se fala no assunto e, embora haja uma maior preocupação em cumprir determinadas regras de linguagem, essa preocupação tem mais a ver com a filtragem de alguns termos que entraram no dia-a-dia português após o 25 de Abril de 1974 com o regresso das populações das ex-colónias e com a popularidade das novelas brasileiras.
7. Você acredita que a unificação do Acordo pode tornar mais forte a CPLP e fazer dela um verdadeiro bloco político lusófono? Ou seja, o Acordo poderia alinhavar uma política mais efetiva entre tais países-membros?
Apenas simbolicamente. Não me parece que o Acordo per si seja essencial. Afinal, existem verdadeiros blocos internacionais de influência cujos membros não partilham o mesmo idioma. Para o bem e para o mal, a economia é hoje em dia o factor decisivo das relações internacionais. Um maior estimulo nas relações comerciais entre os membros da CPLP poderia, isso sim, servir de verdadeiro catalizador para uma melhor e mais influente lusofonia. Infelizmente, Portugal aderiu à União Europeia de uma forma que lhe parece bloquear os horizontes comerciais com o resto do mundo. Todos os países da CPLP teriam imenso a ganhar com uma maior abertura comercial entre eles. Portugal e Brasil poderiam, por exemplo, “ser” as “Franças” e “Alemanhas” dessa união, investindo nos PALOPs e em Timor. Talvez esta seja uma visão muito economicista da questão mas, a longo prazo, parece-me que seria mais eficiente.
8. Na dimensão do Acordo, fala-se muito da relação Brasil e Portugal. Você acha que interessa aos demais países da CPLP - africanos, por exemplo - essa unificação?
Do ponto de vista português, parece-me que a questão do acordo foi demasiado bipolarizada em Portugal e Brasil. Aos PALOPs interessará, com certeza, essa unificação, principalmente se Portugal e Brasil se entenderem.
9. A muito longo prazo, é possível prever uma espécie de morte anunciada da Língua Portuguesa se nada for feito para sua perpetuação e, sobretudo, por conta de pertencer em sua maioria a países economicamente desfavorecidos?
Penso que não. Poderá achar ridícula esta minha afirmação mas parece-me que a língua inglesa corre muito mais esse risco face à descaracterização que começa a sofrer devido a ser o idioma da globalização. A língua portuguesa não tem assim tão grandes diferenças que não permitam a um habitante do Alentejo português entender um nordestino do Brasil e vice-versa. De principio, poderá soar estranho e não se apanhar todas as expressões mas, passado o período de adaptação à pronúncia, entende-se perfeitamente.
10. Você acha que o termo lusofonia hoje se situa mais em que plano, meramente cultural ou já se observa o termo com alguma sensibilidade política?
Acho que se situa no plano das intenções. Não existe na prática nenhuma politica para a lusofonia pela parte dos diversos governos. Quanto à cultura, parecem-me existir tantas culturas lusófonas quantos os países membros da CPLP e isso seria óptimo se funcionasse em favor de uma unidade pluralista, mas não é o caso.
Existem franjas dos aspectos culturais que se sobrepõem, principalmente entre Portugal e Brasil. Em Portugal ouve-se muita música brasileira. No Brasil, alguns escritores portugueses são bastante apreciados.
Deveriam ser estimulados contactos entre as bases da população através de diversos mecanismos de interesse popular. Posso dar alguns exemplos:
- Concursos de poesia escolar
- Consórcios para produção de audiovisuais
- Festivais de música em português
- Torneios desportivos ao mais elevado nível
- Colocar nos programas escolares para adolescentes uma disciplina de Estudos Lusófonos
- As cadeias estatais de televisão emitirem programas de outros países lusófonos
- A livre circulação de pessoas
- Um maior estimulo às relações comerciais entre os CPLP
Portugal deveria ser o principal patrocinador destes eventos numa fase inicial. A história recente de Portugal “virou” Portugal para a Europa quando historicamente tivemos sempre mais virados para o Atlântico. Essa é uma mudança que eu receio trazer apenas algum proveito no curto prazo, não no longo prazo. Por outro lado, parece-me que o Brasil também estará mais “virado” para Norte do que para o Atlântico. A sensibilidade lusófona do Brasil é indispensável para um verdadeiro conceito internacional da lusofonia. Parece-me que caso Portugal e Brasil alinhassem as suas politicas seria altamente benéfico não só para ambos mas para todos os demais países lusófonos.